Como será 2021?

O ano em que a pandemia não será mais novidade 

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A pandemia da Covid-19 modificou a vida de todo o planeta, mas para as famílias que já enfrentavam situação de vulnerabilidade o baque foi ainda maior. O índice de contaminação pela doença, segundo pesquisa do Instituto Trata Brasil, é mais elevado em espaços onde não se tem acesso à água encanada e nem à coleta de esgoto; descrição que se adequa mais às periferias do que aos grandes centros.  

De acordo com os boletins epidemiológicos divulgados pela secretaria de Saúde de Recife, capital onde 600.000 pessoas ocupam 80 Zonas Especiais de Interesse Social, os bairros com a maior taxa de letalidade absoluta por corona têm média salarial de até R$ 1,3 mil e estão entre os mais pobres da cidade. Em junho deste ano, a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco passou a colocar dados de raça e cor no boletim diário. Nas duas semanas seguintes, foi estimado que pelo menos 77,5% dos casos graves da doença no estado se tratavam de pessoas pretas ou pardas. O percentual de casos graves entre brancos foi 12% menor.  

Ações governamentais até foram tomadas, mas se tratavam de medidas pontuais e que não sanavam as reais necessidades das cidadãs e cidadãos. O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos adquiriu 323,4 mil cestas para atender populações indígenas, quilombolas e assentadas durante a pandemia do novo coronavírus.

O auxílio emergencial foi criado, mas logo os 600 reais distribuídos àqueles e àquelas que mais precisavam viraram R$ 300. Agora, em dezembro, foi paga a última parcela, sem previsão de renovação, de acordo com o presidente.  

No início da crise sanitária, muito se foi investido. De acordo com o Monitor das Doações Covid-19, da Associação Brasileira  de Captadores de Recursos, R$ 6.526.279.737 foram doados para mitigar os impactos da crise. Ao todo, somaram 554.236 doadores e R$ 2.453.680.283 mobilizados em 539 campanhas por todo o país Era comum encontrar distribuição de quentinhas pelas ruas, aumentaram os investimentos em ongs e entidades. Mas tudo isso diminuiu com o passar do tempo. 

Durante todo o ano, o Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social realizou atividades para garantir os direitos das comunidades no qual tem atuação. Acompanhamos o dia a dia de famílias que foram atingidas pelo vírus e, por isso, não podemos deixar de nos preocupar. As cestas estão acabando, mas a fome não. O dinheiro para ações está contado, mas as famílias ainda precisam sobreviver.

 

Por isso, nos perguntamos: Como será 2021? Como será o próximo ano, quando o coronavírus já não for mais novidade? 

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O bode e o futuro

Queremos que conheçam o Bode, comunidade localizada na Zona Sul, na RPA6, dentro do bairro do Pina. Local onde 97% da sua população é muito pobre e há 600 pessoas vivendo em palafitas, cobertas por lona e lata. De acordo com pesquisa da UFPE e do coletivo Pão e Tinta, 87% destas moradias não têm sequer água encanada e saneamento básico. Nestas condições as doenças causadas pela miséria são constantes; e com o coronavírus não foi diferente.  O número de casos confirmados na área é de 162, mas têm uma das taxas de mortalidade mais altas da região, com 49 vítimas fatais.  

O Cendhec atua no local, em uma parceria que firmou com o Instituto de Assistência Social Dom Campelo, colaborando com ações de educação para crianças e adolescentes, independência financeira de famílias e proteção ao direito da alimentação. 

 “As cestas básicas que o Cendhec doou ajudaram bastante durante a pandemia. Eu tenho que ‘me virar nos 30’ para conseguir me manter e manter as minhas filhas, então qualquer ajuda é bem-vinda", disse Genilda Alves, uma das beneficiadas pela colaboração das duas entidades. “As ações do Cendhec e Iasdoc são muito importantes para a nossa comunidade, sem elas as nossas crianças estariam mais vulnerabilizadas.” 
 

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A vendedora de Mariscos e sururu, Sheila França, vive com o seu marido e 5 filhos (Michael, 13 anos; Alan Kaique, 11; Beatriz, 8; Adrian Kaique, 6; e Safira, de apenas 8 meses) em uma das últimas palafitas do Bode. Da frente da sua casa se vê o rio, de onde tira o sustento, e o Riomar, shopping construído em cima do mangue. Lembrente constante da desigualdade social. “Quando a pandemia apertou fiquei sem vender, as coisas ficaram feias. Sem as cestas que recebemos seria difícil de viver”, explica. “As crianças sentiram também. Sem aulas e com o centro fechado, vi que elas estão com mais dificuldades. As que tinham começado a ler, não sabem mais. Eu sou analfabeta, não tenho como ajudar.” 
 

 O Cendhec 

Há 31 anos nascia o centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social, organização não governamental sem fins lucrativos que tem por objetivo defender e promover direitos às crianças, adolescentes, moradoras e moradores de assentamentos populares e grupos socialmente excluídos.

Na vanguarda dos direitos humanos e inspirados pelos ensinamentos de Dom Helder Camara, líder que dedicou sua vida à proteção de pessoas vulnerabilizadas, principalmente durante regimes totalitários, temos por missão contribuir para a transformação social, rumo a uma sociedade democrática e popular, equitativa, que respeite as diversidades e sem violência.

O Cendhec, IASDOC e outras diversas instituições, entidades e grupos atuam para aliviar estes sentimentos, para garantir direitos e desenhar políticas públicas. Mas sem investimentos, o futuro preocupa. “Sem sombra de dúvida o que mais preocupa quem tem atuação nas comunidades é de como será 2021. Quando a pandemia for declarada extinta, daqui há um ano ou mais, certamente a desigualdade social terá crescido exponencialmente. Ainda não sentimos tanto porque ações emergenciais foram tomadas, como o auxílio pago pelo governo federal, após pressão da oposição, e as várias doações de cestas básicas vindas do poder público e da sociedade civil em seus diversos segmentos”, diz Alexsandra Silva, assistente social do Centro.  

“A doação de cestas básicas, no contexto institucional, surgiu como uma necessidade de contribuir em ações de segurança alimentar junto as comunidades atendidas pelo CENDHEC. Mas, já vislumbramos efeitos a médio e a longo prazo, pois sabe-se que essas ações serão cessadas no final do ano, nos revelando um 2021 de redução de emprego e renda da população periférica, maior dificuldade de acesso à saúde e o aumento ainda maior no déficit na educação agravado pela necessidade do afastamento das salas de aula de crianças e adolescentes atendidas pela rede pública”, continua Alexsandra. “Esse hiato na educação deixará um passivo social para crianças e adolescentes que perderam um ano de aprendizado, convívio e oportunidades que são proporcionados no ambiente escolar. É uma série de consequências que levarão ao aprofundamento da desigualdade social, onde uma geração de crianças e adolescentes sentiram ainda mais as consequências.”

“A parceria com o Cendhec sempre foi muito boa. Ela já dura muitos anos. Há partilha, é uma presença completa com a instituição. As cestas básicas chegaram como consequência”, explica a irmã Francisca Graça de Jesus, do IASDOC. “Já havia os cursos e oficinas com as crianças, realizados pelo cendhec, as cestas básicas vieram para ajudar as famílias neste momento tão duro da pandemia.” 
 
Nestas oficinas, citadas pela irmã, o cendhec ministrou aulas de educação sexual, utilizando brincadeiras, vídeos e desenhos, meninas e meninos aprendiam, de forma lúdica o direito sobre o seu corpo e vidas. Uma iniciativa rica e transformadora, que precisou parar durante a pandemia; o último destes encontros aconteceu em 2019. Em outubro deste ano, a equipe revisitou as crianças, adolescentes e famílias, para escutar das mesmas e mesmos quais os conteúdos haviam sido absorvidos e como foi este período distante da ação. Muitos relataram a saudade de participar do projeto, principalmente no período da crise sanitária, onde enfrentaram tantas perdas e mortes dentro de sua comunidade.  
 

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Para que o futuro não seja mais duro do que este ano, fortaleça a rede de apoio. Ajude comunidades como o Bode, Cardoso, Mangueira, Mustardinha, Torrões, Várzea e Nova Descoberta, nas quais o Cendhec têm atuação. Colabore com as ações de enfrentamento à violência e o direito à cidade doando para o nosso centro.  
 
Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social 

Banco 237 – Bradesco S.A.  

Agência: 1230-0  

Conta Corrente: 39630-3 

Código Iban: BR86 6074 0123 0000 0396 303c 1

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Alcione Ferreira

Comunicadora do Cendhec

Produção de imagem

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Mariana Moraes

Comunicadora do Cendhec

Produção de texto