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31 de março: Quase 60 anos após a Ditadura, precisamos lembrar que esse não é um dia de comemoração


No dia 18 deste mês, o governo federal ganhou na Justiça o direito de comemorar golpe de 31 de março de 1964, aquele que precedeu 21 anos de Ditadura Militar. Em período pandêmico, com mais de 300 mil mortes no país, celebrar duas décadas de violações aos direitos humanos é uma prioridade para aqueles que deveriam zelar pelos brasileiros.


Ontem, terça-feira (30), aconteceu mais um ataque direto à memória daqueles que sofreram com o regime. O mais novo ministro da Defesa, general da reserva Walter Braga Netto, chamou o período de "parte da trajetória histórica" do Brasil em uma nota onde faz alusão ao golpe. "O movimento de 1964 é parte da trajetória histórica do Brasil. Assim devem ser compreendidos e celebrados os acontecimentos daquele 31 de março", escreveu o general.


O Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social, organização fruto da Comissão de Jsutiça e Paz e que há 31 anos luta pelo direito de crianças e adolescentes, moradoras e moradores de assentamentos populares, acredita que este dia não se celebra, mas lamenta. “Não temos nada a comemorar nesta data. Durante o período da ditadura militar foram cometidos. Diversas atrocidades foram praticadas, tivemos várias pessoas mortas, torturadas, desaparecidas, perseguidos políticos, e vários outros atos graves de violações de direitos Humanos”, aponta Vera Orange, coordenadora geral do Centro. “O período ditatorial é um momento sombrio da nossa história, uma falta de compromisso com a democracia, com a liberdade e com o estado democrático de direito. É sempre bom lembrar que constituição de 1988 condena qualquer tipo de ataque à democracia.”


Dom Helder e a Ditadura


Dom Helder chegou em Pernambuco três semanas antes do golpe militar de 31 de março de 1964, que derrubou o presidente em vigor, João Goulart, e deflagrou 21 anos de ditadura militar no Brasil. Assumindo o cargo de arcebispo de Olinda e Recife, naquele momento passou a atuar em defesa dos presos políticos, em favor da liberdade de expressão e contra a tortura. Por sua missão de fé e igualdade, foi acusado e perseguido por militares, e parte do clero conservador, de promover atividades comunistas.


Seu trabalho virou alvo do regime, ataque que boicotou seu favoritismo ao Nobel da Paz. Através de documentos secretos, foi confirmado que o Governo Médici (1969-1974) havia feito campanha contrária ao religioso. “Dom Helder Camara foi uma liderança fundamental na defesa dos Direitos Humanos durante os 21 anos da Ditadura Militar. Na Comissão Estadual da Memória e da Verdade Dom Helder Câmara tivemos o prazer de publicar um livro, a partir dos documentos que encontramos sobre a perseguição que Dom Helder sofreu pela Ditadura Militar, sobre suas três tentativas de indicação ao Nobel da Paz. Dom Helder foi um brasileiro indicado ao prêmio, mas que sofreu uma perseguição vil. O estado brasileiro atuou contra Dom Helder”, aponta Manoel Moraes, presidente do Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social.


Enquanto era caçado em seu país, proibido de dar entrevistas e de fazer discursos ao público, no exterior o Dom era recebido com carinho e encontrava palco para denunciar os desrespeitos aos direitos humanos e a miséria no Brasil. “Nesta data, é importante lembrar também que Camara criou a Comissão Justiça e Paz, que atuou na defesa dos desprotegidos, na defesa das comunidades vulneráveis. Essa é a comissão da qual o Cendhec é herdeiro. Hoje, celebrar a democracia é celebrar a memória de Dom Hélder Camara. É celebrar aquilo para qual ele lutou.”

Luis Tenderini e a Ditadura



“No dia 31 de março de 1974, exatamente 10 anos depois do golpe, me encontrava preso no DOI-CODI de São Paulo. Fiquei preso mais de três meses sendo torturado longamente. Como eu vou celebrar esta data no dia de hoje?”, relembra Luis Tenderini, sócio fundador do Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social. “O que a Ditadura Militar nos trouxe foi só sofrimento e morte. Não queremos que nunca mais volte, porque não trouxe nenhum benefício ao povo brasileiro.”


Italiano, mas em solo brasileiro há mais de 50 anos, Tenderini chegou ao país como jesuíta e logo se encontrou como militante das causas políticas e sociais, trabalhando lado a lado com Dom Helder Camara, como presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife. Por seu trabalho contra o regime, foi preso como ativista sindical nos anos de chumbo. Mesmo após tantas lutas, aos 76 anos ainda se depara com ações que celebram a Ditadura.


“O novo ministro da Defesa soltou uma ordem do dia pedindo para celebrar o dia 31 de março. Na realidade, para o povo brasileiro essa data não tem nada para celebrar. 31 de março traz à lembrança muita perseguição, mortes, desaparecimentos, prisões e torturas. Este foi o legado que nos deixou a ditadura militar. Não temos nada para celebrar”, comenta Tenderini.


Os anos com Dom Helder agregaram ainda mais propósito à luta de Tenderini. Por influência do Bispo dos Pobres, o italiano assumiu o Trapeiros de Emaús, associação sustentável cuja sede no Recife ajudou a fundar e se tornou um representante na América Latina. Ele também esteve presente na criação do Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social.


“Eu tive o privilégio de conviver com Dom Helder durante cinco anos no dia a dia da Igreja das Fronteiras. Era um privilegio e uma responsabilidade. Ao conviver com ele aprendi o respeito com a pessoa humana, seja ela qual for, aprendi sobre a luta contra a miséria e injustiça, aprendi a lutar pela paz, não somente na cidade, mas no mundo inteiro. Sou muito grato a ele, e vivo esses aprendizados como a responsabilidade de continuar trabalhando nesta mesma linha. O Cendhec é um espaço para isso, para continuar lutando na defesa dos Direitos Humanos e na defesa da justiça e da paz. É o grande legado que nos deixou Dom Helder.”

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