• Cendhec

Cendhec distribui cestas, kit de higiene com absorventes e material pedagógico na Comunidade do Bode

Neste Dia Internacional Contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças, 23 de setembro, a ong alertou famílias sobre a pauta

Foto: Alcione Ferreira/Cendhec "Já escutei muita coisa: "Você é muito bonita", "tem o maior corpão", "já está na hora de namorar". Eu fiquei muito triste. Isso mostra que palavras podem ser violentas também. Me perguntaram se eu fazia programa. Liguei desesperada para a minha mãe na mesma hora", disse uma adolescente durante a oficina ministrada na manhã desta quinta-feira, na comunidade do Bode, localizada no Pina. Ela, e outras 14 meninas e meninos, foi ouvida pela psicóloga, assistente social e educadora social do Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social. O 23 de setembro foi escolhido, ainda em 1999, como o Dia Internacional Contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças. A data nasceu durante a Conferência Mundial de Coligação contra o Tráfico de Mulheres e tem por objetivo chamar atenção para o tema e proteger crianças, adolescentes e adultas destes crimes. Neste dia tão importante para os Direitos Humanos, o Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social, com apoio financeiro das organizações internacionais Freedom Fund e Kindernothilfe, planejou uma série de ações, afim de diminuir os impactos causados por esses tipos de violência, que tanto vem aumentando durante a pandemia. Além da oficina voltada para adolescentes, foram distribuídos kits de higiene, fones de ouvido, kits pedagógicos e cestas básicas para famílias, já cadastradas, da região. O Programa Criança Urgente (PROCRIU), localizado na Rua Eurico Vitrúvio, 124; e o Instituto de Assistencia Social Dom Campelo (IASDOC), na Rua Artur Lício, 221, foram os pontos de entrega.


A comunidade que recebeu a iniciativa, o Bode, está localizada na Zona Sul, na RPA6, dentro do bairro do Pina. Embora seja vizinha do metro quadrado mais caro da capital, Boa Viagem, estima-se que 97% da população do local é muito pobre e há 600 pessoas vivendo em palafitas, cobertas por lona e lata. De acordo com pesquisa da UFPE e do coletivo Pão e Tinta, 87% destas moradias não têm sequer água encanada e saneamento básico. Todas essas são condições que se agravam em meio à crise sanitária em que vivemos. Desde março de 2020, muitas das famílias perderam os empregos, alguns homens e mulheres responsáveis por suas casas morreram, e a situação de pobreza alastrou, fatores que contribuem para o aumento do tráfico de pessoas e situações de exploração sexual.


Agora, muitos brasileiros e brasileiras têm seus corpos utilizados em troca de dinheiro e/ou comida. De acordo com o Disque 100, 301 casos de tráfico de pessoas foram registrados no nosso país, entre janeiro de 2020 a junho de 2021. Ainda de acordo com o levantamento, estas vítimas têm um perfil: 75% delas são crianças, adolescentes e mulheres. Dados do Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas (2017-2020) mostram ainda que 72% das vítimas do Brasil são negras e pobres. Porém, estes números ainda são aquém da realidade, uma vez que a maior parte das violências sequer chega a ser notificada.


“Concentramos nossas ações no dia 23 para aproveitar o tema, que é muito complexo, e alertar para o alto grau de violência que é a exploração sexual de crianças, adolescentes e mulheres. Na oficina com os adolescentes trabalhamos a prevenção e o autocuidado, para ficarmos atentas e atentos a sinais ou indícios de violência”, explica Mona Mirella, coordenadora do projeto Teia de Proteção, oferecido pelo Cendhec e financiado pela associação alemã Kindernothilfe. “As entregas de cestas básicas também são feitas de forma emergencial. Sabemos que não é isso que vai resolver o problema, mas sana de forma momentânea. A fome é um dos principais indicadores de vulnerabilidade, sabemos que muitas famílias acabam passando por este tipo de violência por situação de necessidade, fazem como forma de sobrevivência. Esperamos que este tenha sido um momento de promover dignidade a estas famílias, principalmente para meninas e mulheres.”


Manuela Soler, advogada do Cendhec e representante do Freedom Fund, enxerga a iniciativa como estratégica. “Essas famílias receberam as cestas em um cenário de pandemia, onde ainda não se estabeleceram economicamente, são famílias em que foram identificadas situação de vulnerabilidade”, explica. “O Freedom Fund é uma organização referência no movimento global para acabar com a escravidão moderna e o foco aqui no Brasil é combater a exploração sexual de crianças e adolescentes (ESCA). O objetivo principal do projeto, nesse primeiro momento, é identificar crianças e adolescentes que estão em situação de ESCA na comunidade do Pina, para realizar essa ajuda humanitária com auxílio das cestas básicas, e posteriormente, realizar o acompanhamento e orientação jurídica dessa família.”


As ações


As famílias cadastradas para o recebimento de cestas, kits e oficina foram apontadas por instituições, movimentos sociais e defensores dos Direitos Humanos alocados no Pina, por conviver de perto com os moradores e moradoras e saber suas reais necessidades. Para evitar aglomerações, as ações foram divididas em 3 dias:


No dia 21 de setembro, famílias integrantes do Instituto de Assistência Social Dom Campelo receberam cestas básicas.


No dia 22, quarta-feira, foi a vez das famílias atendidas pelo Centro de Referência da Assistência Social Primeira Infância terem acesso aos alimentos.


No dia 23, Dia Internacional Contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças, foram distribuídas cestas para famílias indicadas pelo Programa Criança Urgente (PROCRIU), Coletivo Cabras e pelo Maracatu Encanto Nação. Neste mesmo dia, no IASDOC, foram distribuídos ainda fones de ouvido; kits de higiene, com shampoo, condicionador, álcool gel e absorventes, afim de garantir a dignidade menstrual de meninas e jovens mulheres; e kits pedagógicos, com lápis, borracha, pastas e caderno para auxiliar na educação de crianças e adolescentes.





“Enquanto educadora, vejo a relevância dessa oficina com o tema da exploração sexual para os adolescentes. Precisamos evidenciar este problema, no qual as vítimas são prejudicadas emocionalmente, fisicamente e psicologicamente pro resto da vida. O nosso objetivo é fazer com que adolescentes possam identificar, possa criar um mecanismo de entendimento, de autoproteção, de autocuidado”, comenta a educadora social Rosângela Coelho, integrante do programa Direito da Criança e do Adolescente, Cendhec. “Sabemos que existe uma rede por trás das explorações sexuais cometidas contra crianças, adolescentes e mulheres. Então é importante que a gente também possa estar articuladas em rede fazendo o enfrentamento, fazendo esse combate às violências.”


"Nos chamou atenção os depoimentos de assédio tão próximos a eles e cenários de exploração no território, por ser tratar de uma área de praia, o que facilita as situações de exploração", disse a assistente social Patrícia Saraiva. "Foi possível ouvir quanto a experiência da violência faz parte do cotidiano dos jovens e o quanto eles carregam potência para serem agentes de mudança e proteção. Percebemos a implicação e a sensibilização dos participantes quanto aos aspectos estruturantes das dinâmicas de violência e a importância da autonomia ao falarem da própria experiência", completou a psicóloga Luanna.



O Cendhec


Com 31 anos de atuação, o centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social, organização não governamental sem fins lucrativos, tem por objetivo defender e promover direitos às crianças, adolescentes, moradoras e moradores de assentamentos populares e grupos socialmente excluídos.

Na vanguarda dos direitos humanos e inspirados pelos ensinamentos de Dom Helder Camara, líder que dedicou sua vida à proteção de pessoas vulnerabilizadas, principalmente durante regimes totalitários, temos por missão contribuir para a transformação social, rumo a uma sociedade democrática e popular, equitativa, que respeite as diversidades e sem violência.


Para contribuir com as ações desse centro tão importante para os Direitos Humanos, faça uma doação:

Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social

Banco 237 – Bradesco S.A.

Agência: 1230-0

Conta Corrente: 39630-3

Código Iban: BR86 6074 0123 0000 0396 303c 1

Código Swift: BBDEBRSPRCE

CNPJ. 24.417.305/0001-61


Posts Em Destaque
Posts Recentes