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O Setembro Amarelo e a saúde mental de mulheres, crianças e adolescentes


“Hoje eu estou alegre. Eu estou procurando aprender viver com espírito calmo. Acho que é porque estes dias eu tenho tido o que comer” escreveu Carolina Maria de Jesus em meados de 1950, neste mesmo mês, setembro. Essa e outras anotações estão compiladas no livro Quarto de Despejo, Diário de Uma Favelada, publicado ainda em 1960.


As frases acima são o desenho de uma memória antiga, colocada em ordem por uma catadora de papel que vivia na Comunidade do Canindé, em São Paulo, com três filhos para criar. Mas não deixa de ser contemporânea. Muitas Carolinas não conseguem se alegrar em um país que voltou ao Mapa da Fome e 49,6 milhões de pessoas sofrem com insegurança alimentar. Marias não aprenderam a viver com o espírito calmo ao perder tantos amores em meio à pandemia.


Diante destes quadros de crise econômica, social e sanitária, torna-se indispensável olhar para a própria saúde física e mental, além de observar aquelas e aqueles em sua volta. Apenas no Brasil, 32 pessoas cometem suicídio por dia, número que corresponde a uma morte a cada 45 minutos. O Setembro Amarelo, mês destinado a prevenção ao suicídio, joga luz nas vidas perdidas desta forma. Com o tema “Agir salva vidas”, a campanha deste ano alerta para o autocuidado.


Para falar sobre mortes auto infligidas, alguns dados devem ser colocados em perspectiva. Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma em cada 100 ocorre por suicídio. A cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida. Pelo menos 79% destes casos se concentram em países de baixa e média renda. De acordo com levantamento do Ministério da Saúde e Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), homens são os que mais morrem desta forma em nosso país. Ao todo, eles correspondem a 76% dos suicidas do Brasil. Porém, são as mulheres que fazem mais tentativas. No período entre 2011 e 2018, mulheres compreendem 67% destes casos registrados no Sinan.


O recorte de gênero mostra que algumas das mulheres tendem a buscar pela morte quando sentem que o seu papel de cuidadora não precisa mais ser cumprido. Levantamento do Ministério da Saúde comprova também que as vítimas de violência doméstica têm 30 vezes maior risco de cometer suicídio. No período de 2010 a 2019, ocorreram 23.929 óbitos do tipo, representando 6,56 suicídios por dia e uma taxa de mortalidade de 2,72 óbitos a cada 100 mil mulheres. Mulheres negras e das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste estão entre as principais mortes. Pobres, como Carolina Maria, são maioria.


Psicóloga do Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social (Cendhec), Luanna da Cruz fala um pouco sobre a saúde mental de mulheres e os impactos da Covid-19. “A pandemia e o isolamento social acarretou em mudanças de vida e perdas tanto materiais quanto subjetivas afetando a saúde mental de todas e todos, principalmente de grupos minoritários e em vulnerabilidade como as mulheres, crianças e adolescentes. Ao longo da história, as mulheres foram condicionadas e submetidas a ocuparem funções e papeis a partir de uma dinâmica opressora pertencentes a estrutura patriarcal. O lugar da mulher costuma ser ditado por outras pessoas, sendo na maioria das vezes, apenas lugar de cuidado para outro, privando-as do cuidado de si. Desta forma, é preciso reconhecer o quanto esta estrutura social delimita os lugares e dinâmicas, evidenciando a necessidade da busca de maneiras de resistência e enfretamento diante de silenciamentos, violências e opressões voltadas às mulheres”, aponta.


“A pandemia além de impactar a saúde mental das pessoas, torna mais evidente as desigualdades e vulnerabilidades resultantes dessa estrutura patriarcal, racista, machista e classista. As mulheres são afetadas pela quarentena seja pelas situações de maternagem, funções de cuidado e até o aumento de ocorrência de violência doméstica. Com o isolamento social há situações de maior incidência de vulnerabilidade para as mulheres e maior risco de violência, assim como maior sobrecarga emocional e afetiva, potencializadas pelo fechamento de escolas, a responsabilidade do cuidado de crianças e idosos sendo direcionadas em maior parte para esse público, o desemprego e até as tentativas de conciliar o trabalho com as demandas de cuidado da casa e da família”, conclui a psicóloga.


Neste ano, a Organização Mundial da Saúde se vê preocupada, também, com o reconhecimento e tratamento de problemas psicossociais de jovens. Segundo a OMS, as condições de saúde mental são responsáveis por 16% da carga global de doenças e lesões em pessoas com idade entre 10 e 19 anos; e metade de todas as condições de saúde mental começam aos 14 anos de idade, mas a maioria dos casos não é detectada nem tratada. A Organização ainda aponta que, em todo o mundo, a depressão é uma das principais causas de doença e incapacidade entre adolescentes e o suicídio é a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos.


“Vale ressaltar a importância do reconhecimento de que crianças e adolescentes estão em maior vulnerabilidade pois precisam de apoio, cuidado e orientação dos adultos que as cercam. Crianças e Adolescentes também passam por situações de sofrimento durante a pandemia, seja pelas aulas remotas, pelo afastamento dos grupos de socialização tão importantes para seu desenvolvimento, pela limitação de espaço e atividades, pelo medo da perda e até pelo compartilhamento do estresse e situações de ansiedade dos adultos”, comenta Luanna. “A violência doméstica contra mulheres, crianças e adolescentes cresce durante o período pandêmico, diante da limitação de espaço e privação de contato com os outros, já que ficam mais submetidos aos agressores; acrescida de desgaste emocional, preocupação, medo e tensão ocasionados pelo contexto pandêmico.”


Como perceber os sinais


Quanto mais cedo o tratamento destas questões for iniciado, maior a qualidade de vida daquelas e daqueles que convivem com estas condições. Por isso é sempre importante estar alerta para os sinais que o seu corpo dá, ou os pedidos de ajuda de quem convive com você.


“Durante o dia a dia é possível observamos o nível de motivação e desempenho diante da execução de atividades cotidianas, como cuidar da casa, estudar, cuidar do corpo e da higiene. Assim como, abertura para o diálogo e compartilhamento de afetos e experiências. O isolamento social naturalmente nos leva para lugares de desconforto e de adaptação, contudo, se durante esse período percebe-se uma dificuldade maior de interação ou de execução de atividades, um retraimento no comportamento e um desinvestimento no autocuidado e na busca por atividades que antes eram prazerosas”, diz Luanna. “Sintomas depressivos e ansiosos como tristeza constante, desmotivação, falta de apetite, insônia, dificuldade de concentração podem ser indicadores importante para avaliar a condição subjetiva relacionadas a saúde mental. Sendo necessário, considerar também as diferentes realidades sócio-economicas, as mudanças na realidade subjetiva, o contexto político atual e seus efeitos; além das perdas e da confrontação com a morte presente no momento atual.”


Caso sinta-se abatida ou abatido, esteja passando por um momento de crise, ou com idealizações suicidas é importante procurar pessoas capacitadas para lidar com as suas demandas. Você pode entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) por meio do número 188. As ligações são gratuitas para todo o Brasil. Ou se consultar com psicólogos e psicólogas, afim de um tratamento contínuo. “Para procurar um profissional de psicologia é preciso desejo, a motivação pode ser autoconhecimento, lidar com sua história, curar um sintoma ou lidar com uma situação de crise. O mais importante é que qualquer pessoa que deseje, possa alcançar um espaço de escuta como apoio diante do sofrimento ou do momento que vive. Se há coisas incomodando ou fazendo sofrer, é importante investir em possibilidades de cuidado, na qual cada pessoa poderá construir sua estratégia para cuidar de si mesmo. A psicoterapia funciona como mais um componente nessa rede de cuidado, proporcionando o espaço acolhedor de elaboração e suporte diante do sofrimento e das vivências singulares”, pontua Luanna.


Abaixo deixamos algumas instituições de ensino que contam com Clínicas Escolas com valores acessíveis ao público e Coletivos que defendem acessibilidade ao serviço de psicoterapia. Ligue e saiba como e quando marcar:


UNICAP

R. do Príncipe, 526

2119-4115

FAFIRE

Av. Conde da Boa Vista, 921

2122-3511

ESUDA

R. Almeida Cunha, 100

3412-4267

ESTÁCIO

Av. Eng. Abdias de Carvalho,

3226-6999

UNINASSAU

R. Jorn. Paulo Bitencourt, 168

3221-7811

FACHO

Avenida Doutor Joaquim Nabuco

3087-0071

FAINTVISA

Loteamento São Vicente Ferrer

3523-1020

FAVIP

R. Jean Emile Favre, 422

3727-4721


COLETIVO FAZENDO QUESTÃO

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