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Ocupe Mídia: Como a Infraestrutura das escolas e Pobreza Menstrual afastam as meninas da Educação



Absorvente com abas, sem abas, absorvente interno, calcinhas absorventes, coletor menstrual, pano, papel e pedaço de pão. No Brasil, pelo menos 30 milhões de pessoas menstruam (ONG Girl UP), mas muitas delas não podem escolher como e o que irão usar para passar este período. De acordo com o relatório Pobreza Menstrual no Brasil – Desigualdades e Violações de Direitos, levantado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), quase 90% das meninas passarão entre 3 a 7 anos da sua vida escolar menstruando, grande parte destas sem acesso à banheiros adequados, sistema de saneamento ou materiais de higiene. Fatores que contribuem para a evasão escolar. Pelo menos 321 mil alunas, 3,0% das estudantes brasileiras, estão em escolas que não possuem banheiro em condições de uso. Destas, 37,8%, 121 mil meninas, são nordestinas. No relatório encontramos também que 1,24 milhão de meninas, 11,6% do total de alunas, não tenham a sua disposição papel higiênico nos banheiros das escolas em que estudam; dentre essas meninas, 66,1% são pretas/pardas. Em estudo da ONG Girl UP Brasil, com apoio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, consta que 1 a cada 4 jovens já precisaram faltar aulas porque estavam menstruadas.


Este é um problema que não para na instituição escolar. Pelo menos 713 mil meninas brasileiras não têm acesso a banheiros em suas casas, pelo menos 395 mil utilizam algum buraco para dejeções, cercado por qualquer tipo de material, outras 237.548 podem estar em uma situação de defecação a céu aberto e 6,5 milhões de meninas vivem em casas em que o escoadouro não está ligado à rede de saneamento. Ainda segundo o relatório, quando fazemos o recorte por raça, a chance de uma menina negra não possuir acesso a banheiros é quase 3 vezes a de encontrarmos uma menina branca nas mesmas condições.


Todos estes dados se tornam mais alarmantes quando encaixados neste cenário de crise sanitária e econômica causada pela Covid-19. Em um país que tem fome, onde 116 milhões de pessoas sofrem algum tipo de insegurança alimentar (Rede Penssan) e 13,6 milhões, 6,5% da população vivem em condições de extrema pobreza (R$ 151,00 ao mês), pacotes de absorventes, com 32 unidades, de R$ 20 reais comprometem 13% do orçamento e são enxergados como luxo, ou apenas produtos estéticos.


Não são apenas números, elas estão aqui

O período menstrual mexe, ainda, com a autoestima de meninas. O sangue da menstruação é culturalmente ligado a algo sujo. Nos comerciais de absorvente os líquidos que representam a menstruação são azuis, para “não chocar” aqueles que assistem. Somos ensinadas a esconder, a não falar, a não pedir ajuda. Aquelas que podem comprar absorventes, item tão fora de alcance de outras jovens brasileiras, são condicionadas a colocá-los em bolsas, em “porta-absorventes”, até mesmo na manga da camisa quando estão a caminho do banheiro. Isso porque nos foi ensinado que menstruar é feio, fétido e não natural. “Pra mim é muito difícil. Às vezes a gente chega na escola com aquele medo até de se sentar, pra quando se levantar, não ficar lá manchado. Também é difícil na hora da educação física, porque a gente não pratica e tem professor que não entende”, diz Geovana*, 15 anos, aluna do oitavo ano da Escola Evangelina Delgado de Albuquerque, em Igarassu. “Às vezes quando vaza a menstruação, somos muito zoadas”


Bruna*, também aluna da Escola Evangelina, faz relato parecido. “Eu sinto insegurança sobre essas coisas porque a gente não tem uma pessoa que entenda, uma pessoa que possamos conversar. Os colegas zoam demais, já fui zoada há muito tempo. Quando chega esse período eu fico pensando “ai, vou ter que ir pra escola...”, bate aquele medo”, comenta. “Às vezes eu preciso me levantar com a bolsa, porque acho que a menstruação vazou e manchou a calça e aí o professor reclama, acha que eu quero sair da sala com a bolsa. Às vezes eu falto aula quando estou assim, porque sofro muito com a cólica e prefiro ficar em casa tomando remédio.” Segundo as alunas, o banheiro da escola também não cumpre com as suas necessidades. “O banheiro da escola, não é muito limpo pra gente que tem esse probl-, esse negócio da menstruação. Pra muita gente é um problema, mas eu sei que é saúde. Bom, o banheiro da escola tem que estar sempre limpo, mas quando a gente chega lá não tem água, não tem papel higiênico”, diz Geovana. “A gente precisa de água pra lavar a mão, papel higiênico limpar alguma coisa que sujou, mas não temos essas coisas básicas”, completa Bruna.


As alunas também acreditam que o tema deveria ser mais debatido, e falam como a Educação Menstrual as teria ajudado em sua primeira menarca. “Gostaria sim que conversássemos mais sobre isso, principalmente nas aulas de ciência, porque tem meninas que não entendem, até mesmo tem vergonha e isso tira vergonha da gente, impulsiona a gente a falar mais, ajudar as meninas que não conhecem, né? Ajudar aquelas meninas que precisam”, comenta Geovana. “Tem meninas que menstruam com 15, 13 e até 12 anos, não sabemos de quase nada com essa idade. Umas aulas sobre o assunto poderiam ajudar a passar melhor estes momentos”, aponta Bruna. Adquirir os absorventes também não é tarefa fácil para as adolescentes. Além da questão financeira, relatam que ficam embaraçadas ao comprar os produtos. “Muitas vezes a gente sente aquela vergonha de comprar quando é um homem que tá lá atendendo. A vergonha fica estampada no rosto”, fala Bruna. “É um item que faz parte da saúde da mulher, então temos que usar. Seria bom que fosse distribuído de graça, muita gente não tem condições de comprar, isso iria ajudar as meninas”, diz Geovana.


O papel da escola



Eulália Maria da Silva trabalha há 11 anos com educação e há apenas quatro meses assumiu o cargo de gestora da Escola Evangelina Delgado de Albuquerque. Como mulher, que também sangra, vê com preocupação as queixas das meninas, e tenta tornar a sua escola cada vez mais preparada para lidar com as questões de gênero. “Trago para minha gestão a minha prática docente, pois nas rodas e conversas que estou fazendo na segunda, na quarta e na sexta com as meninas, trabalhamos temas de protagonismo, temas que trabalhava antes e dava muito certo. Um dos temas dessas rodas de conversa é a questão do gênero. Percebi que muitas não têm conhecimento. Me perguntam: O que é isso, diretora, gênero?”, comenta Eulália. “A falta de informação em relação às meninas da comunidade é muito grande. Muitas são de família de agricultores, se chegam em casa com algo diferente, com alguma informação diferente... Eu, como gestora, tenho que ter cuidado com o que falo, porque eu já conhecia um pouco certa resistência de alguns pais, mas ao mesmo tempo elas não podem ficar sem esse conhecimento.” Essa resistência dos pais provoca uma barreira nas meninas, que se sentem acuadas a conversar sobre o próprio corpo e as mudanças naturais que acontecem durante a adolescência. “Quando abordamos a menstruação, muitas não querem falar. De dez, só duas tiveram coragem de falar. As outras oito, com vergonha, botavam o caderno no rosto, “esse assunto eu não falo”, “nem me pergunte”, “prefiro ficar só pra mim, não falo nem com a minha mãe”, elas não gostam de comentar”, explica Eulália.


Para a gestora, é impossível não se enxergar nas meninas. “Eu me coloco muito, muito no lugar delas. Porque eu lembro, quando aluna, o quanto era difícil. Não se falava sobre esse assunto. Não se falava de período menstrual em casa ou na sala de aula. Eu tenho cinco irmãs, são cinco mulheres e minha mãe nunca sentou pra conversar com nenhuma das cinco. Eu nunca ia para a escola no período menstrual, todos os meses eu faltava. Muitas vezes no ensino médio eu ia pra recuperação, porque num período menstrual eu faltei prova. Isso eu falo para elas”, relembra. “Eu só vim ter dinheiro para comprar absorventes quando eu comecei a trabalhar com meus dezessete anos. Então, dos meus onze anos até os dezesseis anos, eu perdia aulas durante a menstruação. Os três dias eram bem difíceis, eu tomava banho várias vezes, porque minha mãe não via necessidade colocar absorventes entre as compras.” Hoje, ela tenta formar um ambiente mais seguro para as meninas. “Hoje eu ando sempre com absorvente na bolsa, porque talvez encontre meninas em situações difíceis aqui. Na minha sala tem uma caixinha com absorventes também. Nessas rodas de conversas, eu sempre falo pra elas “espero que não seja preciso vocês faltarem porque estão no período menstrual e estão com medo de chegar aqui. Absorvente tem, não fique com vergonha de passar na Escola”, peço para que conversem comigo e se sintam-se à vontade.”


Educação e Gênero

A escola de Geovana, Bruna e Eulália, integra a rede municipal de Igarassu (PE), parceira do Cendhec no projeto Na Trilha da Educação - Gênero e Políticas Públicas para Meninas, iniciativa apoiada pelo Fundo Malala. Abarcado no Programa Direitos da Criança e do Adolescente (DCA), o Na Trilha reconhece e reforça o importante papel protetivo da escola, mas alerta que dentro da mesma estrutura violações de direitos podem ocorrer.


Desta forma, o centro busca entender como ocorrem as desigualdades de gênero nesse cotidiano e como isso afeta o futuro das meninas. O objetivo final é poder criar, de fato, uma rede de proteção capaz de lidar com a questão, além de afirmar as meninas como sujeitos políticos, que devem também ser ouvidas sobre o que afeta suas vidas e escolhas.


Trabalhando com pesquisas em 10% das escolas municipais do Fundamental II nas cidades do Recife, Camaragibe e Igarassu, adolescentes entre 12 e 14 anos serão ouvidas sobre suas vivências escolares, enfocando também como a pandemia afetou em específico a educação dessas meninas, a fim de identificar suas reais necessidades e incidir para criação de políticas públicas efetivas que enfrentem desigualdades de gênero e sejam capazes de amparar este recorte populacional.

Semana de Ação Mundial


Esta reportagem faz parte das práticas promovidas pelo Ocupe Mídia, atividade do Comitê Pernambucano da Campanha Nacional pelo Direito à Educação durante a Semana de Ação Mundial (SAM 2021), maior evento de mobilização em prol da educação no mundo.


Para mais informações sobre a SAM, visite o site da Campanha: https://semanadeacaomundial.org/

O Cendhec


Com 31 anos de atuação, o Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social, organização não governamental sem fins lucrativos, tem por objetivo defender e promover direitos às crianças, adolescentes, moradoras e moradores de assentamentos populares e grupos socialmente excluídos. Na vanguarda dos direitos humanos e inspirados pelos ensinamentos de Dom Helder Camara, líder que dedicou sua vida à proteção de pessoas vulnerabilizadas, principalmente durante regimes totalitários, temos por missão contribuir para a transformação social, rumo a uma sociedade democrática e popular, equitativa, que respeite as diversidades e sem violência.


Para contribuir com as ações desse centro tão importante para os Direitos Humanos, faça uma doação:


Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social


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CNPJ. 24.417.305/0001-61 *Nomes fictícios Arte: Alcione Ferreira Texto: Mariana Moraes

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