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Sem auxílio, comunidades do Recife amargam novo lockdown


Foto: Alcione Ferreira / Cendhec “Um dia desses, meu vizinho passou mal. Bateu na minha porta as três horas da manhã, vi que ele estava sem ar, estava branco. Corri para chamar o Samu, tive que ligar três vezes até que alguém viesse. Foi socorrido, mas não resistiu. Veio a óbito. Ele trabalhava com conserto de ventilador, de máquina de lavar, mas estava sem clientes. Quem tem dinheiro para consertar aparelhos nesses dias?”, comenta Eliane Bem, líder comunitária do bairro da Mangueira, Zona Oeste do Recife. Aos 52 anos, ela assiste de perto a comunidade, já fragilizada pela pandemia, enfrentar o novo lockdown, implementado para tentar frear o crescimento de casos em Pernambuco.


“Não é fácil morar em um bairro em que se tem tanta gente desempregada, tantas lojas fechadas. Claro que as dificuldades aqui no bairro aumentaram. Quantos pais de família já não tinham perdido seus empregos no último fechamento? Quantos não vão perder agora? Quem comprava cinco quilos de arroz, hoje só compra um ou dois. Tudo aumentou, menos o nosso dinheiro. O desemprego está grande”, aponta Eliane. “Todo salário que pegamos, vai pra alimentação. Só dá pra isso. Temos que nos alimentar, se não ficamos doentes, né? Fica mais fácil da Covid-19 nos pegar. A comunidade precisa muito de orientação, mais visitas de agentes de saúde. Não precisamos apenas de ajuda financeira, não precisamos apenas de cestas básicas.”

De acordo com o boletim de saúde mais recente, nesta última quinta-feira Recife confirmou 1.233 casos de covid-19, sendo 1.188 casos leves e 45 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Também foram confirmadas, laboratorialmente, dez novas mortes, sendo três mulheres e sete homens. Ao todo, desde o início da pandemia, o município totaliza 85.150 casos confirmados da covid-19. Destes, 3.290 evoluíram para óbito. Para mitigar a crise, foi implementado um novo lockdown, um ano após o primeiro. O isolamento social é uma medida necessária, mas que agrava diversas fragilidades para as populações vulnerabilizadas. Desta vez, o cenário é ainda pior, pois nem mesmo o auxílio emergencial, disponibilizado pelo governo federal após grande batalha da sociedade civil, está disponível.



“Estou vendo vários serviços e comércios que eram bastante movimentados na comunidade, e que serviam não somente para o sustento dos donos, mas para empregar alguns poucos funcionários, fecharem as portas. Vejo também alguns comerciantes desrespeitarem as regras sanitárias para montar suas vendas, por desespero, para se manter e poder comprar o pão de cada dia”, diz Lula Trindade, integrante do Somos Todos Muribeca. “A narrativa criada pelo próprio governo do estado enfraquece a importância do lockdown. Eles colocam como essencial serviços que não são essenciais para as pessoas da minha comunidade, por exemplo. Colocam concessionárias como essencial; igrejas como essenciais. Os ônibus e metrôs estão lotados, então qual justifica as pessoas encontram para respeitar o lockdown, para cumprir isolamento?”

Na Mustardinha, Zona Especial de Interesse Social localizada na Zona Oeste da cidade, o panorama não é diferente. “A carência da comunidade é demais. Aqui

muitos foram demitidos, os patrões não têm mais condições de pagar salários. Não tem condições sequer de comprar uma máscara, um álcool gel, porque não se tem dinheiro. Para dificultar, aqui temos água em um dia e dois dias sem”. Comenta André Cristiano, presidente da associação dos moradores da Mustardinha. “Estamos piores do que no ano passados. Com auxílio não dava pra viver bem, mas dava pelo menos para comer. Agora nem isso. É difícil. Ano passado fizemos mobilizações e conseguimos cestas básicas para distribuir, mas esse ano não tem de onde tirar. A única coisa que nos resta é pedir ajuda a Deus.”

Renda básica

A Prefeitura do Recife anunciou, na última quinta-feira (18), um auxílio mensal de R$ 150,00 para os cidadãos cadastrados no programa Bolsa Família e de R$ 50,00 para os demais trabalhadores em situação de vulnerabilidade social, valor que está aquém do necessário para viver com dignidade. Em 2020, o valor da cesta básica, por exemplo, aumentou quase 17% nos mercados do município, em comparação ao ano anterior. De acordo com o cálculo feito pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que leva em consideração uma família de quatro membros, com dois adultos e duas crianças, o valor médio da cesta chegou a R$ 444,8. Recife também é a segunda cidade brasileira com maior aumento no preço de gás, apenas em 2021, o valor do botijão sofreu dois reajustes e pode chegar ao consumidor por até R$ 85,00. Como resposta, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto realizaram uma manifestação na manhã da última quinta-feira. Durante o ato, que aconteceu em Paulista, foram requeridos o aumento do valor do Auxílio Emergencial Municipal do Recife, adoção de renda básica, cestas básicas para a população de baixa renda e vacinação para todos os recifenses.


Cendhec

Para tentar diminuir os impactos causados pela crise sanitária e financeira, a sociedade civil precisou exercitar a solidariedade. Durante a pandemia, de julho a dezembro de 2020, o Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social distribuiu 1850 cestas básicas, 510 kits de higiene e limpeza e 1530 máscaras de algodão para as comunidades nas quais tem atuação. Além disso, o centro contribuiu com formação de lideranças comunitárias e levou materiais informativos sobre o auxílio emergencial, higiene e prevenção de violências sexuais durante o período de isolamento.

Neste ano, apesar da diminuição de editais, o centro segue buscando parcerias para implementar novas ações humanitárias. “Diante desse contexto totalmente adverso, e sem precedentes na história recente, as Organizações Não Governamentais tentam socorrer as famílias das comunidades parceiras, seja por meio de distribuição de cestas básicas e kits de higiene e limpeza, ou acionando a Defensoria Pública do Estado, impetrando ações que minimizem as violações constantes das pessoas que vivem nas comunidades”, comenta Cristinalva Lemos, integrante do Programa Direito à Cidade, do Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social. “Não tem sido fácil. As ONGS tiveram cortes consideráveis de recursos nos últimos anos, os parceiros estão financiando menos projetos no Brasil, o que causa a diminuição do quadro técnico para dar conta de tanta demanda posta e pedidos de socorro. Mas continuamos na luta junto as comunidades, pois em muitos casos somos a última esperança neste cenário desesperador, onde a única saída é a resistência.”


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